Hole In My Mind

A incerteza em relação aos fatos torna minha existência um tanto quanto vulnerável, impede que eu caminhe sempre nos mesmos rumos e siga um percurso linear. Conseguir saber o que irá ocorrer comigo é um presente que poucas vezes recebi. Dessa maneira, meus atos e palavras seguem influências da minha vida: previsíveis para alguns, nem tanto para outros. Surpreendente ou não, percalços à parte, sei que chegarei até o meu destino final, mesmo não sabendo qual é ele, como chegar até ele e quem eu realmente sou.

Domingo, Setembro 20, 2009

Desconvidado

Todos as redenções parecem ocorrer sempre nos momentos irreconhecíveis, quando não há sentido, lembranças, e tudo o que nasce já nasce com a pseudoconsciência do fim, fim da felicidade junto ao fim da desordem. Como se a felicidade só fosse possível nos entremeios do esquecível, como se o álcool entorpecesse não somente os sentidos mas também as memórias e os instintos que gritam e reivindicam o seu momento de fé. Apenas porque o efeito é passageiro: os soluços de paixão desaparecem ao mesmo tempo em que a sobriedade ressurge, como se sequer tivesse existido; mas retorna e destrói. Na minha esperança, nada mais surpreende: vivo essa transição como se assistisse reprise das minhas paixões de jovem, compulsoriamente envolvido da pele ao fogo somente à espera da chegada da consciência. Consciência não minha, mas do outro: o encanto acaba quando eu reapareço sem a visão borrada pelo álcool, descartado, descoberto e nu aos olhos do julgamento do não-permitido e do não-permitidor; ele me vê, e diz: 'You, you're not allowed.'

Domingo, Julho 12, 2009

Solidão é uma condição. Não se tem ou se prova: vive-se apesar. Tanto me resume que seria inocência dizer que é apenas parte da minha identidade. Não é parte pois está alinhavada em toda a carcaça original; ela é o cerne, e eu sou franja. Os segundos e terceiros apenas alinham-se à hierarquia natural, já concebida, costurada e engessada. Quem sou eu? Não me encontro em nenhuma parte, pois ainda que pareça enviesado, não sou mosaico - defino-me no vasto vazio onde, certamente, em algum lugar, estou. Inútil resgatar-se por fora, a fora, para fora. Apesar de mim, eu sou ela desde o sangue adentro: a solidão.

Sábado, Junho 13, 2009

Quando o desespero deixou de beirar a ilusão e transcendeu à realidade, vi-me mais perto do muro: ou mantinha-me pressionado perpetuando o sufoco de uma vida sempre empurrada de volta ao início, ou atirava-me ao outro lado. Meu sangue fervia pungente por jamais saber o que havia do outro lado. Ainda assim, eu o desejava. Sobretudo delirava em febres - ora contínuas ora intermitentes - sobre minha reconstrução após a queda. Pois eu sempre soube que havia nascido trincado, e imaginava que apenas a quebra possibilitaria o recomeço. Eu não sou homem pássível de ser restaurado. Então, eu saltei, e em segundos, vi cada pedaço de vidro estilhaçado remontando a minha identidade fragmentária. Do lado em que estou, agora, sei muito pouco; mas como um morto que se comunica do além, eu digo: prefiro a liberdade doce de poder renascer em vida nova àquela existência falsa; irreal; fadada, desde a ala, ao fracasso - que hoje, morreu.

Sexta-feira, Maio 22, 2009

Não escrevo mais com a ferocidade de antes. Vivia em uma dependência quase química da palavra como se descarregasse com ela todas as minhas frustrações. Talvez eu esteja sem resquícios do vício, ou apenas consertado dos perfuros de alma - eu não sofro mais para escrever, e se escrevo, ainda, deixo de sofrer minimamente no instante em que transfiro a algum ambiente incrível que toma minhas decepções e as transforma em arte amadora, a simples composição que se deseja poética como brinde à sua verdadeira intenção: a salvação.

Ás vezes, sinto-me de alguma forma cerrado para a palavra, e não consigo fazê-la nascer, não a conduzo, não a torno remédio milagroso. Ela não sai. Releio qualquer bobagem que já esteja escrita e percebo na veia, vergonhosamente, a minha rendição: minha venda à vaidade. Por luxo, opto pela beleza da união das palavras, o que não é o bastante para me satisfazer: a dor permanece. Vejo conjuntos inteiros alinhados porém submissos à ordem que nunca sanará o verdadeiro cerne da (minha) vida. Nesses dias de comércio, sou obrigado, pela lei da sobrevivência, a abandonar o prazer: atiro-me em carne viva ao que o fundo do peito exige falar, e apressadamente paro e abro as feridas sem pena, pois é só do núcleo de todas elas que extinguirei o caos original. Eu abro o peito para dele fluir o sufoco todo. Em um minuto, a exaustão me toma por completo, e inconsciente do trabalho extirpante, abro os olhos e noto a confissão recém criada. A salvação é temporária, e a dor a propulsionará totalmente cíclica em pouco tempo: até que eu chore novamente.

Terça-feira, Maio 19, 2009

Não quero ter para sempre a sensação de vida injusta e incapaz: eu sou assim porque não aprendi a renascer. Em tantas sobrevidas, restou apenas esta, a única que recupera em coração pungente a vergonha de ser apenas o que sobrou. Sou dobrado e costurado: sou o intervalo entre o meu desejo de bem e a minha vocação para o mau. Entre meus pedaços feios, cruéis e obscuros, existe morto o desejo que um dia tive de fazer-me real. Fazer-me bom. É o desespero: registro, em segredo, a minha inadequação: escrevo como tratamento à maldade. Nesse sentido, sou eu quem convive com o fardo da culpa, a culpa de jamais saber livrar-me dela própria e, assim, descaracterizá-la - caminho doente no sufoco de não alcançar o antídoto: des-culpa. E escrevo chorando por não conseguir calar o peso da dor: eu não sei perdoar. Então aqui, nu, deixo que saia.

Domingo, Abril 19, 2009

É difícil fingir para quem já tem a verdade. O olhar desconstrói cada intenção, e a resposta me soterra: "Eu sei que você está mentindo". Eu não estava mentindo: eu estava me forçando a acreditar em qualquer coisa que desviasse da vontade de mentir cada vez mais para que ao longo do processo me tornasse falseador, inventor, sonhador e assim abafasse o grito de desespero real. Tão real que sangra. Eu finjo mentir para me fazer resistir, e tanto luto que penso conseguir, até ser derrubado pela verdade de quem me conhece. Sobretudo de quem, ainda que ciente das minhas tentativas, não finge saber que a minha angústia é incapaz de ser retida nas minhas falsas mentiras: assim como eu, ela sobrevive.

Sábado, Abril 04, 2009

Outro dia li alguém dizendo que Fulano havia sido um dos quatro amores de sua vida. A notícia me causou desconforto, não por condescendência à quantidade / qualidade dos amores de Fulano, por imediata referência a mim: e se, em uma vida toda, existe um número exato de vezes para amar, de pessoas a amar? E se eu, ainda que jovem, já tenha preocemente utilizado todos os meus créditos? Ainda que não saiba muito bem quando a minha terminará, já saberia que terminaria completa, sob a perspectiva de amores vividos, e infeliz, sob a concepção de incompletude que cada um desses amores talhou em mim. Se tivessem me completado, não estaria sem amar há tanto tempo.

Foram apenas dois. Há muito tempo. Um amor encarrilhado ao outro, um sufoco de alma que desgovernou o moleque inexperiente e tatuou marcas inesquecíveis e irreversíveis. Entre o intervalo inexistente, eu não tive tempo de recuperar os restos de cada amor alinhavado entre o fim e o início do próximo. Foram gêmeos: hoje sou pai solitário. E a distância do tempo de amar me faz pensar em muitas possibilidades, dentre as quais seria inútil apontar a que me veste melhor. Eu a reafirmo em cada sentimento grudado a essa letras.
Posso ser eufemista e pensar que é melhor ser cego agora e guardar as lembranças de todas as visões que tive quando ainda enxergava o mundo além de mim. Mas o sofrimento decorre exatamente de todas as visões do passado imperfeito - porém verossímil - que me garantiu felicidades aqui e ali, e ainda que esburacado, me produziu, assim como Fulano, em homem de amores. Dois amores. Distantes. Velhos. Amores que à parte a esperança, reverberam sua condição: eles acabam.

Todas as pessoas que existiram na minha vida são, e sempre serão passageiras. Porque o que fica de todas elas é o tênue fio condutor que dita a minha caminhada: é a minha vontade. E a minha vontade determina que nenhum deles resistirá - pois a mim não se lida a não ser com resistência, resistência de alma e coração. Pois eu penso que não são as pessoas que passam por mim: eu é que enveredo pelos caminhos conhecidos e, sapecamente, os deixo. Todas as trilhas sonoras blues que me fazem imaginar partidas, me remetem a pessoas se despedindo de mim - eu jamais me vejo afixado dizendo adeus.
Talvez tudo se resuma nisto: eu sempre partirei das vidas de quaisquer valentes amores que resistirem a mim. Sempre, ainda que imprevisível, vai haver o momento em que eu não desejarei mais amar a quem amo, e ao som da trilha sonora de algum filme antigo brega, eu vou embora com a mesma dor que deixo naqueles que me amaram, mas severamente rasgado pela minha condição: eu sou alguém que parte.