Hole In My Mind

A incerteza em relação aos fatos torna minha existência um tanto quanto vulnerável, impede que eu caminhe sempre nos mesmos rumos e siga um percurso linear. Conseguir saber o que irá ocorrer comigo é um presente que poucas vezes recebi. Dessa maneira, meus atos e palavras seguem influências da minha vida: previsíveis para alguns, nem tanto para outros. Surpreendente ou não, percalços à parte, sei que chegarei até o meu destino final, mesmo não sabendo qual é ele, como chegar até ele e quem eu realmente sou.

domingo, setembro 25, 2011

Porque está sempre lá. Ou aqui. Dentro, mesmo. E nunca vai sair. É como um mal sem cura, uma doença sem saídas, que mobiliza todos em busca da solução. a diferenca é que a minha só afeta a mim. Por enquanto, e ate quando ela existir, nao sera visivel a mais ninguem. Nao porque nao quero. Nao me importaria em ser diagnosticado, mesmo sabendo que e incuravel. Mas nao e visivel. E sentida na pele, antigamente em carne viva; agora em solucos. Esporadicamente. E sempre sera assim. Pois o que tenho feito, desde que descobri que a minha doenca nao seria, jamais, estudada, invrstigada e, entao, resolvida, tem sido tolerar. E respeitar. Porque em progressao, como desenvolvia-se antes, nao conseguia viver, ainda que nao saiba se o que produzo e enxergo agora e, assim, vida. Talvez nem seja a minha. Mas ela esta la. Aqui. Me lembrando sempre que embora nao borbulhe, ela respira. Tambem porque a deixei viver por mim, pois nao sabia como suportar o diagnostico proprio, silencioso e sufocante da solidao. Eu nao quero a cura. Seria preciso nascer de nvo para entender o que eu sinto, mesmo apesar de todos os tudos que eu tenho e sou. Se e que sou. Pois ninguem sabe o que eu sinto no escuro, quando independente do que esta ao meu redor, eu sinto a doenca me sufocar, como se me dissesse, e me lembrasse, severamente, que eu nasci para sustenta-la. E o que eu sempre terei pra mim, e ninguem nunca sabera. Podem ate saber o que, mas o modo e secreto, obscuro e amargo. Nao sera, jamais, compreendido. E nao culpo um ou outro pelos socos no estomago que me despertam quando os engulo completamente em minha sede por salvacao. A culpa - existe culpado por dor orfa? Existe responsabilidade para solidao? - sou eu. Ou nao. Mas nao e justo que sejam eles, que apenas me fazem lembrar, em sopros de desejos de felicidade, amor, atencao e redencao que apesar do insucesso do tratamento, apesar da prescricao sem cura, apesar da fatalidade ser crua, eu ainda nao cedi. Inconscientemente, algum desespero de refutar o fim me arrasta para a vida, mesmo nao pedindo, mesmo nao querendo. E o instinto. Mesmo mutilado pelas dores continuas e sempre em desenvoovimento, eu nao morri. E é o instinto por salvacao - em amor e felicidade e paz - despertada por eles que me revela a sobrevivencia de uma vida marcada, para sempre, pela doenca. A minha solidao tanto luta que ainda vencera, se e que ja nao me tomou por completo.

segunda-feira, março 07, 2011

É exatamente quando todos os outros se agrupam em seus nichos mais previsíveis, acoplando-se em casas de encaixe simétrico e - se não os conhecesse - diria "perfeitos", é exatamente nesse quadro em que me vejo, me sinto e me faço mais - ainda - só. Pois a verdade é que a solidão é uma maldição mascarada, traiçoeira, cínica. Me abraça e me engana como se não me quisesse inteiro e sem restos. É dissimulada no sentido mais extremo da angústia. Que já nem é mais assim. Já é hábito. Assiduidade. Constante. Doença.

quarta-feira, novembro 10, 2010

A maldição

Fiquei muito tempo sem pensar. Começo a achar que desaprendi, que perdi a prática. Tenho passado tanto tempo sendo bêbado e ocupado e encontrado e realizado que esqueci o que é ser infeliz. Agora me vem a ânsia de relembrar, à luz das coisas que eu escrevo. É bem verdade que nunca optei por isso; faço porque sou obrigado e porque preciso de um ponto cego. Bem cego. Ninguém me lê; ninguém me ouve; ninguém me sente. Nunca me senti bem com a idéia de divulgar meu desespero porque não me sinto confortável em exposição, minha alma na vitrine. Também não quero ser importunado com explicações. Eu me chateio muito com os pedidos de clarificação, tanto porque na maioria das vezes eu mesmo não sei explicar o que escrevo, quanto porque tenho preguiça. De pessoas. Quase nunca estou disposto a ser gente e conviver com gente. Dá muito trabalho, e eu me canso fácil. Talvez por isso não insista que alguém me leia: ainda me exaure o trabalho de me relacionar com qualquer entidade que, sabe-se lá porquê, se interessa por mim. Então me conto minhas infelicidades e angústias sem esperanças de salvação. É apenas um exercício de sobrevivência: se não escrevo enquanto morro, corro o risco de viver a mediocridade; a vida branca. Sem pensamentos. Sem pensar. Quase como a vida que vivia há meia-hora, antes de começar acontecer esse desassossego. Eu sou o corredor de todas as turbulências e corredeiras: na estreitidão da minha felicidade, minha alma cansada não me deixa continuar sem antes anunciar esse instante de raciocínio, de pensamentar todas as partes da minha natureza insatisfeita e de meu eterno coração furacaozado, que derrama tudo, até a última gota, neste texto. Nesta maldição.

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quarta-feira, setembro 22, 2010

A impassividade da leveza que essa nova vida me trouxe duela, agora, com a melancolia que vem da dor de, repetinamente, perder a liberdade. A ausência de desexpectativas, despreparos, desconexão com o outro lado da vida - que não é a morte - é o que traz o gosto bobo de desesperança. Como se os dias dessa vida velha jamais pudessem acompanhar a inexplicável felicidade paradoxal do medo de estar sempre só, perdido, sem dinheiro nem bolsos, totalmente despreparado, sem amor ou reflexo, transbordando a todo momento desorientação, sem segurança ou salvação; e mesmo assim, de qualquer modo, em qualquer lugar em meio a histórias e romances, incontestavelmente achado, como nunca antes, distante e em segredo, feliz.

sábado, maio 15, 2010

Esse post é para Ninguém: eu não te amo. Eu também tenho o direito de não querer o querer comum, talvez não querer nem mesmo o menos louco. Tenho razão - e me coloco na posição certa pois me julgo sem ajuda - em querer nada, pouco, talvez pouco mais. Mais do que isso, menos do que é "normal". Não suporto o normal, é sempre muito pouco para todo o espaço que eu ocupo. Penso que sou grande, mas na verdade, sou do tamanho de Ninguém. Depende de quem vê / sente / sabe. Talvez eu esteja cético, mas e se não estiver? Então sempre será assim? Marasmo? Lapsos de felicidade? Talvez. Jamais sem dúvida, quase sempre vagamente. Vagamente delirioso no sono da interminável carta a Ninguém, que existe, está vivo e me lê. A Ninguém, não escondo, revelo todos os lados, inclusive o lado de frente, que é lado sim, porque eu quero e escrevi. Então é. De frente, Ninguém vê minha cara. É assim que há de ser, e sempre foi, e sempre me alimentará: escrevo a Ninguém porque sempre, é sempre assim: Ninguém sempre me vê.

terça-feira, abril 13, 2010

Aceitei e pensei: não há mal em anestesiar o sofrimento. Há tanto tempo sofria que pensei que não causaria danos a minha brincadeira infantil de perfurar agulhas pelo corpo buscando o alívio. Não pensava que pudesse curar todo o mal; queria apenas o intervalo do sufoco. Mas eu sempre me engano quando brinco de fingir felicidade porque nenhum fragmento da minha peça decadente se assemelha à realidade que eu gostaria que existisse. Eu invento para poder escapar, mas sem a esperança de que no escape eu seja feliz. Sempre atuo sabendo que tudo o que está em cena é meu alter-ego, o permitidor, e não o que domina e controla. A anestesia traz diversão. É como álcool, drogas e algum sexo: entorpece e faz sorrir, mas não naturalmente. É induzido. O pior efeito: o fim do efeito. Todas as sensações passam e que fica é o que sempre esteve, como se nada tivesse ficado além de tudo que já ficou por muito tempo e sequer, algum dia, algum momento, em algum lapso da tentativa de existência externa à realidade, tenha deixado de estar. Sempre esteve. Aí volto dos delírios febris e penso: não amar me faz não sofrer a dor da perda. Penso na perda e na dor, e penso que poderia - e deveria - ter sido muito mais feliz em todas as dores de perdas e sofrimentos de abandonos do que nesse lamento oco de falta de todos os outros efeitos. Eu me anestesio para que o vazio doa menos. E no final, mesmo não sabendo mais como é, calculo que o resultado é igual. Estou aqui para registrar que perder e não ter não é sucesso. Dói do mesmo jeito - ainda que eu soubesse como.

sábado, janeiro 30, 2010

Eu não quero viver para sempre no submundo da felicidade, escondido em esquinas escuras como se tudo o que carrego fosse clandestino. Não é. É o que tenho para me fazer sobreviver por mais alguns dias, o que por si só não é o bastante. Eu me vejo em uma constante fuga, em escapes paranóicos de uma obsessão absurda, infundada, que não me faz bem pois exige que eu seja frio e transparente. Não gosto de buscar o proibido, mas o sigo instintivamente pois de alguma forma, ele me atrai. O impossível sempre é meu foco. Até que o sofrimento da busca inútil seja demais para tolerar para sempre, por todos os momentos em que eu desejar viver, e vagabundamente vivendo, o fardo de amar escondido. Sempre em prece contra a descoberta da minha verdade original, que inevitavelmente nascerá por conta própria, independente da minha rejeição, como se escapasse do meu ventre e chorasse em minha cara: não existe cura para o seu medo de viver.