Hole In My Mind

A incerteza em relação aos fatos torna minha existência um tanto quanto vulnerável, impede que eu caminhe sempre nos mesmos rumos e siga um percurso linear. Conseguir saber o que irá ocorrer comigo é um presente que poucas vezes recebi. Dessa maneira, meus atos e palavras seguem influências da minha vida: previsíveis para alguns, nem tanto para outros. Surpreendente ou não, percalços à parte, sei que chegarei até o meu destino final, mesmo não sabendo qual é ele, como chegar até ele e quem eu realmente sou.

Segunda-feira, Janeiro 25, 2010

Anestesia

Eu o encontrei na sala de espera, amuado no canto, inclinado rumo à mesa de revistas imundas e mãos e pés sempre doentes. Não chorava, não assim, como se convencionou chorar. Parecia gritar, gritar baixo, diminuindo em uma gradação tão irritante que quando calou, soltou um berro de silêncio. Como se todos nós tivéssemos ficado surdos de ouvir o seu vazio. Eu não senti a explosão, mas também eu já não sinto nada. Não fez diferença. Não sabia se me aproximava e o tomava brutamente, para acabar com aquele lamento, ou se esperava junto ao tempo que ele precisasse para ressecar indistintamente tudo o que saía por baixo da pele, da boca fechada, do cabelo desarrumado em seu ar maniqueísta de morte ou vida momentânea. Pensei em resgatá-lo. Eu precisava resgatar. Não saberia bem o que fazer com ele, mas vê-lo pulsar em sangue frio não parecia certo. Esperei mais. Pensei que a náusea do incompreensível cederia inevitavelmente à minha espera irritada, cansada. Eu já estava de saco cheio. Eu não sinto e não obrigo que ele também seja indiferente, mas eu decidira sobreviver convivendo com as responsabilidades da minha marca. Eu estava traçado. Ele não era nada, mas estava sendo tudo o que jamais fora, e o tanto que o vi ser, ali, no canto da sala de espera perto da mesa de revistas e jornais nojentos - o que ele foi, ali, ultrapassava todas as iniciações que tentara antes. Também nem sei se já tentara. Mas ali, naquele momento, ele soube - consciente que eu também sabia, obviamente - que ele estava sendo. Tudo o que eu quisera dele, ele não me deu. Ele jamais me buscou. Pode ser que não se lembrava, que me julgasse livre. E sou. Mas eu o quis em minha inexperiência. Minha gênese mal-fadada. Agora, só podia oferecer o resgate. Eu não o toquei. Apenas me aproximei, senti seu medo, ele sentiu minha angústia. Não falou nada, eu também não. Apenas sentimos o que era antes instransponível, e naquele momento, irreversível: sentimos o que passava. Era o peso da solidão. Solidão mútua e recíproca ainda é solidão? Ele fechou os olhos e fez-se menor e mais inclinado em direção ao submundo da sala. Eu entendi, imediatamente, que me rejeitara. Ele queria o resgate, ele sofria a ausência do salvamento. Tudo o que ele queria era o que eu estava oferecendo na carne, instintivamente. Só então percebi que o que ele não queria era eu. Passos retrógrados, comecei a sentir-me menor, diminuía no compasso dos azulejos rumo ao elevador. Nem sei se cheguei até lá. Pouco a pouco, eu diminuí, e comecei a desaparecer com o medo - o pavor - de jamais conseguir voltar a ser.

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