A maldição
Fiquei muito tempo sem pensar. Começo a achar que desaprendi, que perdi a prática. Tenho passado tanto tempo sendo bêbado e ocupado e encontrado e realizado que esqueci o que é ser infeliz. Agora me vem a ânsia de relembrar, à luz das coisas que eu escrevo. É bem verdade que nunca optei por isso; faço porque sou obrigado e porque preciso de um ponto cego. Bem cego. Ninguém me lê; ninguém me ouve; ninguém me sente. Nunca me senti bem com a idéia de divulgar meu desespero porque não me sinto confortável em exposição, minha alma na vitrine. Também não quero ser importunado com explicações. Eu me chateio muito com os pedidos de clarificação, tanto porque na maioria das vezes eu mesmo não sei explicar o que escrevo, quanto porque tenho preguiça. De pessoas. Quase nunca estou disposto a ser gente e conviver com gente. Dá muito trabalho, e eu me canso fácil. Talvez por isso não insista que alguém me leia: ainda me exaure o trabalho de me relacionar com qualquer entidade que, sabe-se lá porquê, se interessa por mim. Então me conto minhas infelicidades e angústias sem esperanças de salvação. É apenas um exercício de sobrevivência: se não escrevo enquanto morro, corro o risco de viver a mediocridade; a vida branca. Sem pensamentos. Sem pensar. Quase como a vida que vivia há meia-hora, antes de começar acontecer esse desassossego. Eu sou o corredor de todas as turbulências e corredeiras: na estreitidão da minha felicidade, minha alma cansada não me deixa continuar sem antes anunciar esse instante de raciocínio, de pensamentar todas as partes da minha natureza insatisfeita e de meu eterno coração furacaozado, que derrama tudo, até a última gota, neste texto. Nesta maldição.
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