Porque está sempre lá. Ou aqui. Dentro, mesmo. E nunca vai sair. É como um mal sem cura, uma doença sem saídas, que mobiliza todos em busca da solução. a diferenca é que a minha só afeta a mim. Por enquanto, e ate quando ela existir, nao sera visivel a mais ninguem. Nao porque nao quero. Nao me importaria em ser diagnosticado, mesmo sabendo que e incuravel. Mas nao e visivel. E sentida na pele, antigamente em carne viva; agora em solucos. Esporadicamente. E sempre sera assim. Pois o que tenho feito, desde que descobri que a minha doenca nao seria, jamais, estudada, invrstigada e, entao, resolvida, tem sido tolerar. E respeitar. Porque em progressao, como desenvolvia-se antes, nao conseguia viver, ainda que nao saiba se o que produzo e enxergo agora e, assim, vida. Talvez nem seja a minha. Mas ela esta la. Aqui. Me lembrando sempre que embora nao borbulhe, ela respira. Tambem porque a deixei viver por mim, pois nao sabia como suportar o diagnostico proprio, silencioso e sufocante da solidao. Eu nao quero a cura. Seria preciso nascer de nvo para entender o que eu sinto, mesmo apesar de todos os tudos que eu tenho e sou. Se e que sou. Pois ninguem sabe o que eu sinto no escuro, quando independente do que esta ao meu redor, eu sinto a doenca me sufocar, como se me dissesse, e me lembrasse, severamente, que eu nasci para sustenta-la. E o que eu sempre terei pra mim, e ninguem nunca sabera. Podem ate saber o que, mas o modo e secreto, obscuro e amargo. Nao sera, jamais, compreendido. E nao culpo um ou outro pelos socos no estomago que me despertam quando os engulo completamente em minha sede por salvacao. A culpa - existe culpado por dor orfa? Existe responsabilidade para solidao? - sou eu. Ou nao. Mas nao e justo que sejam eles, que apenas me fazem lembrar, em sopros de desejos de felicidade, amor, atencao e redencao que apesar do insucesso do tratamento, apesar da prescricao sem cura, apesar da fatalidade ser crua, eu ainda nao cedi. Inconscientemente, algum desespero de refutar o fim me arrasta para a vida, mesmo nao pedindo, mesmo nao querendo. E o instinto. Mesmo mutilado pelas dores continuas e sempre em desenvoovimento, eu nao morri. E é o instinto por salvacao - em amor e felicidade e paz - despertada por eles que me revela a sobrevivencia de uma vida marcada, para sempre, pela doenca. A minha solidao tanto luta que ainda vencera, se e que ja nao me tomou por completo.
Hole In My Mind
A incerteza em relação aos fatos torna minha existência um tanto quanto vulnerável, impede que eu caminhe sempre nos mesmos rumos e siga um percurso linear. Conseguir saber o que irá ocorrer comigo é um presente que poucas vezes recebi. Dessa maneira, meus atos e palavras seguem influências da minha vida: previsíveis para alguns, nem tanto para outros. Surpreendente ou não, percalços à parte, sei que chegarei até o meu destino final, mesmo não sabendo qual é ele, como chegar até ele e quem eu realmente sou.

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